Eu na multidão

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João, dezesseis anos, estava na aula de filosofia, quando o professor disse que estava faltando identidade; as pessoas estão vivendo uma crise de identidade, é como se a crise da adolescência se perpetuasse para sempre, e, para concluir, disse que até mesmo os cristãos estão perdendo a sua identidade.

João ficou muito confuso com as palavras do professor e chegou para o catequista questionando-o:

– O que é identidade?

– O que é crise de identidade?

– O adolescente vive uma crise de identidade?

– O cristão católico tem uma identidade própria?

Identidade é a noção que a pessoa tem sobre o tipo de pessoa que ela é. A identidade é a resposta para a pergunta: quem sou eu? O conjunto de informações contidas na resposta forma o que chamamos de identidade: a idade, local de nascimento, profissão, se é pai, mãe, filho, estudante, católico; tudo isso forma a nossa identidade. É muito importante ressaltarmos que a construção de identidade é um processo que se inicia antes mesmo de nascermos e vai se completando até o último dia de nossas vidas. Por exemplo, hoje você pode ser apenas filho, mas quem sabe, um dia, quando casar-se e tiver um filho, você irá acumular mas um papel social, o de pai.

Cada indivíduo traz consigo as marcas das experiências afetivas vividas nos diversos relacionamentos que manteve desde o seu nascimento. São muitas as influências recebidas e de diversas formas considerando o convívio com a família, pais, irmãos, parentes, amigos. Cada pessoa ao seu modo deixa um registro em nós que irá fazer parte de nossa história. O nosso jeito de ser, de falar, de sentir, de se comunicar demonstra a forma com que essas experiências afetivas ressoam dentro de nós.

A adolescência é uma das fases mais importantes da vida de uma pessoa, pois muitas escolhas feitas nesta etapa da vida irão delimitar o futuro: a escolha da profissão, a escolha do estado de vida. Esta exigência de escolhas, e consequentes transformações, podem gerar um momento de dúvidas e crises (ver Temas 5, 11, 12 e 16); É na adolescência que já começamos a nos responsabilizar pelas nossas escolhas, nossas ações. Por isso, é muito importante nessa fase refletir sobre quem sou eu e quem eu quero ser. É o tempo ideal para se refletir sobre o nosso projeto de vida, superando a crise e encontrando uma direção fundamentada na vontade de Deus, pois Ele, sendo nosso Criador, é o único que nos conhece a fundo e sabe o que é melhor para a nossa felicidade. O Papa Emérito Bento XVI disse em uma de suas viagens no ano 2008, na França:

Os jovens são minha maior preocupação. Alguns deles têm dificuldade em encontrar uma orientação que lhes convenha ou sofrem uma perda de referência em sua vida familiar. Outros experimentam ainda os limites de um pluralismo religioso que os condiciona. Às vezes marginalizados e com frequência abandonados a si mesmos, são frágeis e têm de enfrentar sozinhos uma realidade que os supera. É preciso, então, oferecer-lhes um bom marco educativo e animá-los a respeitar e ajudar os outros, para que cheguem serenamente à idade da responsabilidade“.

Somos responsáveis pela construção de nossa história e, além da família, precisamos de outros espaços e outras pessoas para a construção de nossa identidade em outros lugares, na companhia de outros. A escola é um dos espaços de construção da identidade. No aprendizado, na convivência, na relação com os educadores, aprendemos a nos situar no mundo em que vivemos. Escola é lugar onde se percebem as relações que constituem nossa sociedade. Por isso, a educação pode ser mais que conhecimento teórico; pode contribuir na formação da consciência política, na construção da cidadania, na preservação da vida em suas diversas manifestações. A educação ajuda nos aprendizados fundamentais: aprender a ser, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a aprender.

Um autêntico processo educativo ajuda a pessoa a se conhecer e a descobrir quem ela é. Identidade tem a ver com autenticidade e senso crítico. “Dançamos conforme a música” ou procuramos discernir bem as coisas? Se quisermos ter senso crítico é preciso antes de tudo nos conhecer. Na verdade temos necessidades dentro de nós que buscamos satisfazer apenas para sermos aceitos socialmente. Será que isso é realmente importante? Muitos fazer algo porque todo mundo está fazendo e nem sequer refletem sobre as consequências de seu ato.

Atualmente, o mundo passa por uma grande perda de identidade, “esta perda de um sentido de si estável é chamada, algumas vezes, de deslocamento – descentração dos indivíduos tanto de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos – constitui uma crise de identidade para o indivíduo” (Hall, p.9). Muitas doenças com crise de ansiedade, síndrome do pânico têm relação direta com o que chamamos de crise de identidade. A pessoa não sabe quem ela é e nem para onde vai; não tem consciência de sua realidade e nem sabe o que quer ser e fazer. Pior do que isso, ela se deixa manipular pelas pessoas, pela moda, pela pressão do grupo, pelos próprios instintos.

Só quem conhece bem a si mesmo é capaz de descobrir suas capacidades e seu potencial, de se aperfeiçoar, de se educar, superar seus limites, dar sentido a sua vida e se autorrealizar.

A busca da identidade vai modificando a personalidade do adolescente. A personalidade é algo próprio do ser humano, é ser pessoa, alguém único e irrepetível, integrado por características herdadas e adquiridas a partir da interação com o meio, no processo de crescimento no tempo e no espaço.

Para encontrar a resposta à pergunta: “quem sou? Qual a minha identidade?” é preciso amadurecer, firmar os traços de sua personalidade, não deixar-se levar por influências que afastam do que efetivamente se pretende ser. O processo de amadurecimento da pessoa proporciona a integração, o equilíbrio, a síntese do “eu” que sou, com o “eu” que os outros pensam que eu sou e do “eu” que desejo ser para corresponder ao projeto de Deus.

Uma pessoa que não integra esses “eus”, perde a sua identidade, age falsamente para agradar os outros ou para manter as aparências. Enfim, quem não assume sua identidade, não pensa o que fala, não faz o que diz, acaba perdendo a sua dignidade de pessoa humana.

Ter identidade é você saber quem é você. É você compreender-se e aceitar-se como é, para, então, procurar ir transformando-se naquilo que quer ser” (Antônio Carlos Gomes da Costa in Dom Eduardo, p.79). “É preciso ter consciência de quem somos. A partir daí, e aceitando esta realidade, somos, então, convidados a valorizá-la ou transformá-la dependendo da situação. Portanto, é preciso ter: consciência  das próprias forças e fraqueza, consciência dos estímulos e dos elementos facilitadores, consciência dos obstáculos, riscos e desafios” (Dom Eduardo, pp.69-70).

Se quisermos chegar a uma compreensão de nós mesmos devemos parar de nos preocupar tanto conosco e começar a enxergar mais os outros, a vida. É o outro que mostra quem sou. Quando tenho raiva, amor ou medo eu revelo o que tenho no mais profundo de mim. E quem provoca as emoções? O outro! As pessoas que vivem ao meu redor provocam e estimulam as minhas emoções. Que tal aprender com elas?

É na convivência que formamos e damos conta da nossa identidade e essa pode ser alterada conforme a fase da vida em que nos encontramos. Na busca da felicidade vamos jogando fora o que não serve mais, arrumando as ideias, o sentimentos, conhecendo mais intimamente cada cantinho do quarto, da sala… e são as pessoas que nos dão o referencial necessário para perceber se “a casa anda bagunçada”. Por isso a importância do grupo e da confiança adquirida nas pessoas que o integram.

Este “outro” que nos auxilia a descobrir quem somos e, principalmente, Deus. Quando nos comunicamos e revelamos algo de nós para os outros, diminuímos um pouco o mistério que somos para nós mesmos e para os outros, mas nunca chegamos a saber perfeitamente quem somos. Só Deus, que nos criou, sabe quem somos de verdade e poderá nos ajudar a amadurecer nossa identidade. Ele nos conhece de maneira perfeita desde antes do nosso nascimento. Nunca existiu e nem vai existir, outra pessoa completamente igual a este ou aquele. Cada um de nós é um ser único, criado por Deus com muito amor.

Em toda esta história de identidade, não podemos perder de vista a identidade primeira e fundamental, de que somos todos filhos e filhas de Deus, de uma Pai que nos ama e nos criou a sua imagem e semelhança.

Extraído de: Subsídios Afetividade e Sexualidade; Volume 1; Capítulo 9.      topo da página

Author: Pascom

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