Razão da vida

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Amor pra cá amor pra lá… de geração em geração o amor está sendo falado, cantado, explicado, interpretado, sentido, vivido, mas… o que é o amor? Sem pretensão de dar uma resposta definitiva, seguem algumas reflexões que ajudam a entender porque o amor inspira e sustenta a vida humana e dá sentido à existência.

Essa pequena palavra possui um significado tão amplo e abrangente como tem sido a sua expressão ao longo do tempo. Na língua portuguesa pode  significar afeição, compaixão, misericórdia. ou ainda, inclinação, atração, paixão, querer bem, satisfação, conquista, desejo; são definições diferentes e, às vezes, até contraditórias.

Somente o ser humano apresenta a capacidade para viver bem o amor em suas diferentes manifestações: amor materno, amor de irmão, amor de amigo, amor a Deus, que são relações entre pessoas. Mas também usamos a mesma palavra para relações não com outras pessoas, mas relação de uma pessoa com realidades impessoais: amor à arte, amor ao estudo, ao trabalho, à terra, amor à vida.

Na verdade todas essas expressões do amor revelam algo da natureza humana: o potencial para amar. Deus é amor (1Jo 4,16) e criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança dando-lhes a capacidade para viver o amor verdadeiro. Por isso, o ser humano deve cultivar em seu coração esta certeza de que nasceu do amor e para amar. Para conseguir aperfeiçoar esse amor que vem de Deus é necessário procurar reconhecer no próximo esta imagem do amor divino. Se eu disser que amo a Deus e odeio o meu irmão, estou sendo mentiroso, pois se não amo o meu irmão a quem vejo, imagine amar a quem não vejo?! (cf. 1Jo 4,20).

A maior missão do homem é dar à luz a si mesmo, é tornar-se aquilo que ele é potencialmente” (Erich Fromm).

O homem e a mulher possuem um potencial imenso para amar que precisa ser desenvolvido ao longo da vida. A criança, mesmo que não tenha sido gerada numa relação de amor, traz consigo como herança divina um potencial para vivê-lo, porque Deus nos amou primeiro: “Antes de formar-te no seio de tua mãe, eu já te conhecia…” (Jr 1,5).

Nesse sentido, o amor entre pessoas é fruto de entrosamento, requer o conhecimento do outro e se constrói gradativamente. Nesse sentido, o amor é fruto de um processo dinâmico, de uma construção, de um aprendizado contínuo que envolve uma série de atitudes: amizade, admiração, encontro, segurança, presença, confiança, respeito, carinho, alegria…

E, por ser fruto de uma aprendizagem, o desenvolvimento e a manifestação do amor se manifestam progressivamente na medida em que a pessoa é amada. A atitude das pessoas que desempenham o papel de educadores é condição essencial para aprender a amar: pais, professores, catequistas, entre outros, contribuem para aprender a amar como consequência do amor de Deus que primeiro nos amou.

Mas se o amor está em nossa natureza, parece uma contradição dizer que é preciso aprender a amar. Se, por um lado, nascemos com um potencial para o amor, por outro não sabemos como viver este amor. Precisamos de modelos e bons exemplos. Grande parte da aprendizagem da criança acontece por imitação. Ela copia e repete o comportamento dos pais, avós, professores, enfim, das pessoas com as quais convive. Ao mesmo tempo em que imita também interage com as pessoas e com o mundo ao seu redor, interiorizando sentimentos a partir das experiências significativas. O amor começa a ser comunicado, aprendido, desenvolvido, desde os primeiros momentos da vida que se inicia no ventre materno. Daí a importância das relações saudáveis que colaboram para a integridade da pessoa e para o seu amadurecimento afetivo.

é necessário aprender a amar para que o amor pleno não se reduza a um simples sentimento, muitas vezes confundido com um instinto natural. As muitas definições e distorções sobre o amor nos confundem! Os nossos sentimentos nos confundem! As dificuldades em amar de verdade nos confundem! Se não lembrarmos de que o amor de verdade exige compromisso, transparência, verdade, fidelidade, podemos facilmente nos frustrar.

Amar ao próximo, como Deus nos amou na pessoa de Jesus Cristo, é o mandamento que Ele nos deixou para que na convivência com o outro possamos antecipar aqui a felicidade que não passa, mas que permanece por toda a eternidade (cf. Mt 22,39 e Lc 10 30-37).

E porque Deus nos amou primeiro e sem medida, ele enviou seu Filho, para nos ensinar o caminho que nos garante a verdadeira felicidade. “Nisto consiste o amor: não em termos amado a Deus, mas em Ele nos ter amado e enviado seu Filho” (1Jo 4,10-14).

A palavra amor, principalmente na mídia, não se liga imediatamente a esse amor pleno que é a novidade do cristianismo. Nas conversas, em geral, a primeira ideia que vem à cabeça quando se fala em amor é a de entrega física, amor carnal. Por isso é tão difícil falar desse assunto. Mesmo quando se fala no amor dos pais pelos filhos, também podemos compreender isso de modo errado. Muitos pais dizem amar os filhos de uma maneira protetora, paternalista, autoritária, sem levar em conta a liberdade do projeto de vida do filho. Outros, no entanto, acreditam que o amor aos filhos se expressa em concerder-lhes tudo o que quiserem e jamais contrariá-los naquilo que desejam: eles que decidem, dizem. Como resolver isso? Que critérios nos podem ajudar?

Em primeiro lugar, temos o próprio exemplo de Jesus! Ele amou a todos dando a sua vida, e tornou-se solidário com as criaturas, ensinou-as a viver e morreu por elas, valorizou certas renúncias e exigiu a prática do perdão como condições importantes para viver o amor. Porém preservou a liberdade de cada um. Jesus disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6) e manifestou o desejo de ter seguidores: “Segue-me…” (Mc 1,17). Mas, como mestre, não se impôs aos seus discípulos; indicou-lhes o caminho de felicidade e deixou-os livres para escolher. O amor amadurece na escolha livre e responsável por aqueles e aquilo que realmente possam trazer plenitude à nossa vida.

Para ficar parecido verdadeiramente com o Mestre é necessário assumir a centralidade do Mandamento do amor, que Ele quis chamar seu e novo: ‘Amem-se uns aos outros, como eu os amei’ (Jo 15,12). este amor, com a medida de Jesus, com total dom de si, além de ser o diferencial de cada cristão, não pode deixar de ser a característica de sua Igreja, comunidade discípula de Cristo, cujo testemunho de caridade fraterna será o primeiro e principal anúncio, ‘todos reconhecerão que dois meus discípulos’ (Jo 13,35)” (Doc. Aparecida).

Daí se entende que “amor” tem a ver com a solidariedade e liberdade. O amor de Jesus é pleno, ilimitado, inclui até mesmo os inimigos (cf. Mt 5, 43,48), porque se manifesta também no perdão (cf. Lc 23,34).

Diante disso, será que podemos dizer que é amor o gesto de uma mãe que leva drogas ou armas para seu filho na prisão? É amor o que move um pai que espanca o filho? É amor quando um filho faz o que a mãe quer só por interesse da recompensa prometida? Justifica-se um jovem que assassina a ex-namorada “por amor”? Um casal, realmente “fez amor” quando gerou um filho, mas não se responsabilizou posteriormente por ele? É possível dizer que se ama a Deus sem amar o próximo?

A quem iremos seguir? Quais são os modelos que o mundo, a sociedade, a família estão apresentando? Que tipo de amor está sendo vivido e ensinado pela sociedade?

Aprender a amar significa integrar corpo e alma, unir as dimensões material e espiritual do ser humano, porque “nem o espírito ama sozinho, nem o corpo: é o homem, a pessoa, que ama como criatura unitária, de que fazem parte o corpo e a alma. Somente quando ambos se fundem verdadeiramente numa unidade é que o homem se torna plenamente ele próprio. Só assim que o amor – o eros – pode amadurecer até a sua grandeza” (Bento XVI, Deus caritas est, 5).

O amor se apresenta em diferentes níveis e precisa evoluir para que a pessoa consiga viver a plenitude para a qual é chamada, a verdadeira felicidade. Existe uma atração natural entre o homem e a mulher, que é resultado da força erótica que encontra na palavra grega eros o seu significado: atração física, instintiva, que busca a satisfação dos desejos sexuais em nível mais básico, fisiológico. O prazer que o amor erótico proporciona apesar de intenso, é passageiro; diferente do amor philia, onde o sentimento é fruto do conhecimento do outro, da convivência fraterna que gera alegria e felicidade mais duradoura, como acontece quando, além da atração física, estabelece-se a amizade entre duas pessoas que estão enamoradas. Mas, para que o amor atinja o seu nível mais elevado – ágape – o amor doação, entrega total, onde o mais importante é a felicidade do outro e não a própria – é preciso renunciar ao egoísmo (ver Tema 30).

A Igreja tem como missão própria e específica comunicar a vida de Jesus Cristo a todas as pessoas, anunciando a Palavra, administrando os sacramentos e praticando a caridade. É oportuno recordar que o amor se mostra nas obras mais do que nas palavras […] Nem todo o que diz Senhor, Senhor… (cf. Mt 7,21). Os discípulos missionários de Jesus Cristo têm a tarefa prioritária de dar testemunho do amor de Deus e ao próximo com obras concretas” (Doc. Aparecida, 386).

Nas suas diversas modalidades, só constituirá amor verdadeiro aquele que estiver ligado ao amor de Deus, que é a fonte de todo amor. Somente ele – que nos amou até o fim e com todo o seu ser – poderá nos ensinar a medida certa do amor: “O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor” (1Cor 13,4-5). É ele que nos permite buscar a eternidade do amor no outro, no ser amado. Assim como a criatura busca o Criador, também busca a realização plena em dar e receber amor, não como um simples sentimento, mas como uma decisão consciente e livre, como manifestação concreta da vontade de viver em comunhão.

Atualmente, existe um estímulo muito forte para as relações passageiras, para a satisfação pessoal, para a valorização do “eu”. Como o amor poderá evoluir se não houver convivência? Como poderá ser sinônimo de amizade, se outro é apenas alguém que atende aos meus interesses? Como o amor poderá superar a força do egoísmo, da busca de prazer, se não existe a preocupação com o bem-estar da pessoa com quem nos relacionamos?

Alguém precisa fazer a diferença para transformar esta realidade. Jesus é o Mestre a quem devemos seguir. Ele é o modelo a ser imitado. Ninguém demonstrou maior amor pelo ser humano.

Extraído de: Subsídios Afetividade e Sexualidade; Volume 1; Capítulo 7.      topo da página

Author: Pascom

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