Saber escolher

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Chegando a uma aula de ciências, em que o professor tratou da importância da preservação da natureza, o menino foi direto à varanda de sua casa e abriu a porta da gaiola onde estava um passarinho. O passarinho voou até a primeira árvore que estava em seu caminho e pôs-se a cantar alegremente, feliz, como se estivesse agradecendo seu libertador. O menino sorriu e pensou: gostaria de ser livre como o passarinho.

Todos nós desejamos ser livres. A liberdade produz em nós o prazer de viver. Há muitos jeitos de entender a liberdade. Para uns, a liberdade diz respeito apenas aos movimentos, poder e vir de um lado para outro, sem limites físicos, de tempo e espaço. Para outros, o importante é falar o que se pensa, sem censura. Outros ainda percebem a liberdade como a possibilidade de comprar tudo o que desejam, ou conseguir aquilo de que gostam, ou de experimentar tudo o que lhes é sugerido na TV.

Para o passarinho, a liberdade é poder voar, porque ele foi feito para isso. A natureza lhe deu asas para voar. O seu instinto busca o ar livre para seus gorjeios. A formiga, a abelha, o urso, cada um tem habilidades dadas a sua espécie. Até as plantas são assim: não têm liberdade de fugir de sua própria natureza. A macieira dá maçã, a mangueira dá mangas, o pé de morangos… só pode dar morangos. Se os animais e as plantas não podem romper com o destino que lhe deu a criação, com os homens e mulheres é um pouco diferente.

O mesmo desejo de voar pode gerar duas atitudes totalmente opostas. Uma delas leva à morte – quando uma pessoa pretende imitar um super-herói e lança-se das alturas de um prédio, sem nenhum equipamento. A outra leva ao crescimento, à possibilidade do desenvolvimento da humanidade – como fez Santos Dumont, que trabalhou com afinco na criação e aperfeiçoamento de um instrumento capaz de permitir ao homem voar. A diferença entre as duas atitudes está no uso da liberdade: no primeiro caso, a pessoa quer satisfazer seu desejo sem usar a razão; no segundo caso, a liberdade de agir foi orientada de modo racional. E isso faz toda a diferença.

As aves voam apenas com suas asas, mas o ser humano, que não tem asas, pode voar de avião e de um jeito que só a pessoa é capaz, com o pensamento, com a imaginação, dom que não foi dado aos passarinhos.

Deus concedeu a cada ser humano a capacidade de organizar a sua vida e planejar o seu futuro. Somos cooperadores da criação. Deus nos deu este dom, a que chamamos livre arbítrio. Podemos decidir o que nos convém e o que não nos convém. E isso pode nos levar ou não ao prazer de viver.

Esse dom que Deus nos dá também nos responsabiliza porque nossa inteligência nos diz quais são os atos que vão produzir o bem e quais vão produzir o mal para nós mesmos, para os outros, para a natureza, para a história. A liberdade que escolhe fazer o bem nos deixa alegres. E essa alegria é um sinal de felicidade.

O exemplo dos animais também nos ajuda. Só as aves voam; um quadrúpede, só porque acha bonito voar, nunca poderá fazê-lo; se tentar, vai se machucar muito. Os animais agem apenas por instinto, conforme a natureza dada por Deus. Nós, por outro lado, agimos com o auxílio da razão para administrar a liberdade.

Tendo feito os seres humanos livres, Deus nem sequer nos impede de rejeitá-lo. Ele nos deixa livres pára amá-lo ou não. Mas sabemos que amando a Deus e ao bem que ele preparou para nós é que teremos uma vida digna de ser chamada de vida humana. Quando a criatura escolhe livremente a vontade do Criador, a felicidade é garantida e a vida, preservada. O fato de sermos livres e capazes de nos relacionar com os outros é o que nos permite dizer que somos feitos à imagem de Deus.

Para ser livre é preciso conhecer a verdade (cf. Jo 8,32 e 16,13). E o que é a verdade? A verdade é tudo aquilo que favorece a vida. E como atingir essa verdade? Perguntando àqueles que criou a vida e a liberdade: Deus! E todos nós, dotados do livre arbítrio e de inteligência, somos capazes de conhecer Deus e toda a verdade que nos liberta e traz a felicidade (cf. Catecismo, 36). Cabe a nós a opção pelo que é melhor: a verdade que liberta ou a mentira que escraviza?

Tomo hoje por testemunhas o céu e a terra contra vós: ponho diante de ti a vida e a morte, a benção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas com a tua posteridade” (Dt 30,19).

Para conhecer os limites da nossa liberdade, é preciso conhecer a nossa própria natureza. Se a natureza das aves é voar, qual é a nossa? Para que Deus nos criou? Deus nos criou para a felicidade e nos deu a liberdade e a razão para decidirmos por nós mesmos o que fazer de nossa vida. Será que acreditamos que Deus quer o melhor para nós? Será que podemos encontrar felicidade longe de Deus? Será que agindo contra a nossa natureza podemos viver bem?

Não podemos confundir liberdade com libertinagem. O ser humano é livre para fazer o bem. Abusar da liberdade, fazer o que não convém para o seu próprio bem e para o bem do próximo, decorre da possibilidade de decidir fazer o mal. Certa vez, alguns jovens decidiram colocar fogo num índio em Brasília e o mataram. Isto foi gesto de liberdade?

Às vezes fazemos o mal por ignorância das consequências de certos atos, ou porque alguém nos impõe violentamente uma atitude má ou ainda porque alimentamos em nós o egoísmo. Quanto mais cedermos a tentação de fazer o mal, mais ficamos diminuídos na nossa dignidade.

O limite da nossa liberdade é a dignidade de ser humano; é o respeito para com a vida de todos. Quando usamos a nossa liberdade sem levar em conta a dignidade humana, na verdade nos tornamos escravos de maus hábitos, ficamos presos a certos vícios. Por isso, podemos dizer que ser humanamente livre é ser capaz de optar pelo bem e pela verdade; é ter coragem e força para renunciar a todo mal; é não se apegar a coisas apenas aparentemente boas; é pensar no futuro e no bem.

Liberdade é o poder dado por Deus ao homem de agir ou de não agir, de fazer isto ou aquilo, de estabelecer assim por si mesmo as ações deliberadas. A liberdade caracteriza os atos propriamente humanos. Quanto mais fazemos o bem, tanto mais nos tornamos livres. A liberdade atinge a própria perfeição quando está ordenada a Deus, sumo Bem e nossa Bem-aventurança. A liberdade implica também a possibilidade de escolher entre o bem e o mal. A escolha do mal é um abuso da liberdade, que leva à escravidão do pecado” (Compêndio do Catecismo, 363).

Extraído de: Subsídios Afetividade e Sexualidade; Volume 1; Capítulo 3.     topo da página

Author: Pascom

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